quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

A barreira da experiência

Há alguns dias conversava com uma amiga sobre o fato de ela não ter experiência em determinada área. Ela gostaria de atuar, mas não se sentia preparada. Imaginava que outras pessoas eram melhores do que ela. Ela mesma já havia definido e erguido a própria barreira.

Uma história boa como ilustração: o ator brasileiro Wagner Moura concorreu ao Globo de Ouro pela sua atuação como o traficante Pablo Escobar, no seriado Narcos, da Netflix.

Wagner Moura revelou que, quando soube da possibilidade de ganhar o papel, foi para a Colômbia estudar espanhol durante alguns meses. Ele não falava espanhol, e pensou: na pior das hipóteses, aprendo outro idioma. Mas a melhor hipótese se concretizou, e ele estava preparado para assumir a responsabilidade (vamos relevar aqui a polêmica do sotaque brasileiro do personagem. Se ele foi indicado ao prêmio, é porque ele foi bem).

Alguns leitores dirão: “Claro, o Wagner Moura é milionário. Eu sou um azarado que precisa trabalhar todos os dias.” Mas você também consegue aprender espanhol hoje sem gastar nada, sem sair de casa. Estou aqui sentado tentando imaginar algo que você não possa aprender de graça hoje em dia, e está difícil encontrar alguma coisa. O que falta é determinação, disciplina, essas coisas que o dinheiro não compra.

Muita gente sente esse despreparo e logo rejeita qualquer chance ou oportunidade de mudança. Também me parece que superestimamos nossos concorrentes. Como se os outros fossem todos estudiosos experientes. Pelo que eu percebo, um mínimo de esforço diário já representaria um grande diferencial.

E ninguém está 100% preparado, não importa para o que seja. Todo o aprendizado exige um esforço contínuo. Quem acha que já sabe tudo que precisa para alguma função, provavelmente está defasado.

E se você reparar, verá que os grandes profissionais, aqueles de alta performance, estão sempre num estado de atenção que podemos chamar de “modo aprendizagem”. Eles não podem e nem querem se acomodar.

E voltando ao caso da minha amiga: preparação exige novos hábitos. Por isso, se ela estudar e praticar uma hora, ou até meia hora por dia, no final do ano terá centenas de horas de estudo e experiência. O conteúdo está disponibilizado, de graça. Só falta disciplina.

E em geral é assim que as coisas acontecem: as oportunidades aparecem para aqueles que se dedicaram um pouco. Na verdade dificilmente uma oportunidade cai do céu: ela vai aparecer porque quem está se preparando consegue vê-la. Quem não está preparado, só reclama e enxerga barreiras.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Identificando ambiciosos

Estou auxiliando uma empresa no processo de criação de um novo cargo de chefia comercial. Creio que o aprendizado possa ser útil ao nobre leitor, seja empresário ou não.

A primeira dúvida dessa empresa era se trazia um profissional de fora ou se escolhia alguém da casa. Como a função, nesse caso, não exige um conhecimento que a empresa não possua, o profissional pode ser da casa. Também é importante mostrar aos funcionários ambiciosos, no bom sentido, que a empresa oferece oportunidades de crescimento. Dizem que todos os bons profissionais são ambiciosos. Se isso for verdade, o que fazer com os acomodados? Que se retirem?

Nesse ponto em que se escolhe um prata da casa, muitas empresas cometem um erro comum: nomear alguém, mas sem avaliar se aquela pessoa realmente deseja ser chefe. Como no desenho do Pica-pau: alguém morrendo de medo recebia a estrela de xerife e deveria ir prender o bandido. Para que isso não aconteça, a primeira etapa é identificar, entre a equipe, quem deseja disputar a vaga.

Existem muitas histórias de empresas que colocam, por exemplo, o melhor vendedor para ser o gerente. E então perdem o melhor vendedor e adquirem um gerente fraco. Nem todo mundo tem o perfil e a determinação para liderar pessoas.

Como nesse caso a vaga não existe ainda, é muito importante definir as funções do novo cargo (algo raro em pequenas empresas). Isso deve ser feito antes de a vaga ser anunciada à equipe. É bem comum ver pessoas sendo contratadas sem saber exatamente o que vão fazer. E essa lista com as atividades descritas vai ajudar o funcionário a decidir se quer disputar a vaga ou não.

Um exemplo que pode parecer banal, mas que já presenciei: a empresa contratava pessoas para a função de caixa em um supermercado, mas sem especificar as funções. E então, já no primeiro dia, o gerente pedia para o caixa ajudar, por exemplo, na reposição de produtos. Alguns só pensavam, mas alguns protestavam: “Mas eu sou caixa!”. E agora: ele está certo ou errado?  

E um último cuidado: nas entrevistas, não avalie apenas conhecimento técnico. O melhor exemplo para ilustrar esse problema: os concursos públicos. O candidato com mais conhecimento é aprovado, porque sabia mais conteúdo da prova. E então essa pessoa, que passou os últimos anos trancada em casa estudando, é colocada para resolver problemas das pessoas. O resultado é a prestação de serviço público que comentam por aí. 

A lição: o mais importante para funções gerenciais (e para quase todas as funções) é a habilidade de relacionamento e comunicação.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

A semana e toda a vida

Costumo dirigir a palavra escrita aqui aos gerentes, proprietários, chefes. Afinal, as mudanças de maior impacto dependem de quem manda. Mas obviamente existem questões que escapam da responsabilidade deles. A seguir, um exemplo.

É normal encontrarmos no Facebook publicações com dizeres mais ou menos assim: “Até que enfim sexta-feira!”. Ou então: “Graças a Deus acabou a semana!”. Ou ainda: “Não aguento mais, preciso de férias!”

Muitas vezes sentimos a mesma coisa. Curtimos essas frases e imagens que comemoram o final de mais uma semana de trabalho. No entanto, é preciso ter certo cuidado ao tornar públicas essas manifestações. Elas revelam um pouco sobre o seu trabalho – e muito sobre você.

Se o seu chefe lê uma frase dessas que você postou, o que ele pensa? A primeira impressão é que você não gosta muito de trabalhar lá. Que o que você faz é um sacrifício e você não vê a hora de acabar. E que é bem provável que na primeira oportunidade você vai abandonar o barco. Ou estou exagerando?

Mas digamos que você esteja realmente cansado do seu trabalho, e não liga em demonstrar isso, mesmo que indiretamente, para quem quiser saber. Será que essas expressões não podem prejudicar o futuro? Imagine alguém que pensa em contratar você, mas no histórico do Facebook vê que você costuma comemorar a sexta-feira e reclamar da segunda. Será que simplesmente mudando de trabalho você vai começar a gostar do que faz?

Mais um sinal: o tempo costuma se arrastar quando fazemos o que não gostamos. E os bons momentos passam voando. Isso não acontece apenas nas férias – é assim em qualquer lugar. Logo, se você reclama que ainda é segunda ou terça, podemos inferir que você não está se divertindo das 8 às 18.

Além da percepção que causa nos outros, ficar reclamando que a semana de trabalho não passa é um problema pessoal, que precisa ser encarado. A principal reflexão é: será que você vai passar a vida esperando pelo final de semana? Será que o trabalho precisa ser esse fardo? Será que, ao invés de reclamar, não seria melhor construir outro caminho?

Cada final de semana que se comemora representa um pedacinho do ano que vai embora. Quem comemora toda semana que termina, já pode comemorar o ano que acaba – mas que, profissionalmente, foi jogado fora. Feliz Natal!



quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Sobram planos, falta tempo

Quem acompanha o meu trabalho sabe que, com certa frequência, faço apresentações sobre Marketing e Inovação pela região. Ao final das apresentações, sempre deixo meu e-mail e falo que, quem quiser a apresentação em PDF, basta me escrever. Vejo as pessoas baixando a cabeça e anotando o endereço eletrônico (era assim que se falava em 1999).

No começo eu ficava imaginando a quantidade de e-mails na minha caixa de entrada no dia seguinte. Mas hoje eu sei que vem pouca coisa. Meia dúzia de e-mails no máximo.

Ao final das apresentações muita gente fala comigo. Comentam algo que acontece com sua empresa, algo que se identificaram, e eu peço para me escreverem: “tenho material, vamos trocar informações, vamos ver como o Sebrae pode ajudar”, entre outras exclamações. As pessoas aparentam estar empolgadas, cheias de ideias. Mas logo me esquecem, e não me escrevem jamais.

Sei que não é algo pessoal. O que acontece é a manifestação de uma característica que todos temos: somos todos extremamente criativos. Todos. Temos muitas ideias e planos. Mas sonhar e imaginar é a parte fácil. A parte difícil, que exige certo tempo e dedicação, essa deixamos para depois. E para mais depois. E aquela grande ideia acaba esquecida.

Para evitar isso, sugiro dar o primeiro passo. O primeiro e-mail. A primeira ação tangível. Porque é frustrante ter muitas ideias e nunca coloca-las em prática. E pior, sempre repetindo a mesma desculpa: a falta de tempo. E perceba, leitor: eu não pedi que comprassem selos, fossem ao correio e me enviassem uma correspondência, como se fazia em 1993. É um e-mail, digitado em um minuto. Até que ponto a tecnologia realmente nos ajuda?

Esse primeiro pequeno passo costuma gerar um efeito transformador. Comece a leitura. Mande uma mensagem para um contato importante. Faça a matrícula. Todo grande empreendimento, pessoal ou profissional, começa sempre com uma ação minúscula. No entanto, os mesmos planos grandiosos, quando não é dado esse primeiro passo, morrem no travesseiro, no chuveiro. Morrem na ausência de uma pequena ação inicial.

Falta tempo, mas o tempo vai passar de qualquer jeito. Seria melhor que ele passasse enquanto fazemos alguma coisa. Qualquer ação que represente um começo.


quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Volte a brincar, empresário

Quando penso nos dilemas do empreendedorismo, lembro de algo que acontecia na infância. Construíamos, por exemplo, uma estradinha na terra. Depois a ponte, o rio, a cidade toda. Até que, horas depois, estava tudo pronto: era chegado o momento de brincar. Mas daí a “graça” se perdia. O verdadeiro entretenimento era criar, construir.

Daí escuto que muitos empreendedores não são bons empresários. Segundo os críticos eles montam um negócio mas não sabem administrar. E daí a empresa não funciona.

Pode ser. Mas o que me parece é que continua acontecendo o mesmo que acontecia na infância. A parte divertida é construir. E na empresa estabelecida, quando não há para onde crescer, a equipe perde a motivação e não quer mais “brincar”.

Ultimamente, no entanto, minha preocupação é com aqueles empreendedores que se transformaram em bons empresários. Eles são, do ponto de vista tradicional, bem sucedidos. Abrem e fecham a empresa todos os dias. Controlam toda a gestão, fiscalizam tudo. Condenaram-se, no bom e no mau sentido, a atuar no operacional até o filho assumir. Ou o genro.

É claro que empresas novas precisam da atuação direta do dono. A prática evidencia isso. E quem já estudou o ciclo de vida das organizações vai lembrar: autores comparam um novo negócio a uma criança. Ela precisa da orientação constante dos pais. Mas depois ela cresce. Ou melhor: ela só cresce de verdade se ganhar independência.

Precisamos desses empresários construindo de novo. Por isso, pensei em um desafio. Empresário: defina um período de um ou dois anos, e nesse tempo transfira a gestão do negócio para alguém. Pode ser para um parente, mas o ideal seria que fosse para um funcionário exemplar. Ele merece essa chance. Dizem que os bons carregam consigo a ambição de crescer. E você, empresário calejado? Perdeu essa ambição pelo caminho?

E durante esse processo de delegar a gestão, sugiro que construa algo novo: monte outros negócios. Resolva outros problemas. Abra uma filial. Ou melhor: invista em alguém. Apoie uma ideia de negócio e, além de investidor, seja um mentor. Ajude nossos novos empreendedores. Você sabe como. Você já desbravou o caminho.


quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Repetições preguiçosas

Há alguns dias eu ouvia uma pesquisadora comentar o desafio constante de fazer ciência e não emitir opiniões pessoais. O drama é o seguinte: existem coisas que ela acredita, que ela acha que são verdade, mas que não passaram pelo rigor da observação do método científico. Logo, ela se esforça para evitar esses juízos de valor, pois não se sabe de onde surgiram.

Todo profissional passa por esse desafio. No meu caso, especialmente no marketing, o desafio é não repetir o que todo mundo fala sem analisar a realidade, sem ao menos usar um pouco a lógica ou o bom senso. Vou citar alguns exemplos notórios de frases que repetimos mas que, em geral, representam apenas um discurso preguiçoso.

Primeiro exemplo: “Propaganda é a alma do negócio”. Se o seu negócio não tem uma alma, uma razão de existir, não é a propaganda que vai resolver esse problema. A propaganda existe para mostrar quem você é, como você resolve, o que você tem para ajudar. Caso contrário, estará apenas embalando o vazio.

Segundo exemplo: “Nosso objetivo é atender todas as necessidades dos clientes.” Será que você realmente sabe o que o seu cliente precisa? Será que você é obcecado pelo problema do seu cliente, ou a equipe de vendas só pensa na meta financeira? Há alguns dias, ouvi um empresário se queixar que as pessoas não davam valor ao seu produto. Uma frase que revela o quanto ele está focado em faturar, e não em entregar uma solução.

E para concluir, o exemplo mais corriqueiro: “Aqui o cliente vem em primeiro lugar.” Mais uma dessas frases que todo mundo repete e que ninguém acredita. Sugiro você anunciar que na sua empresa o cliente vem em segundo lugar, e a equipe em primeiro. Assim, quem sabe a equipe assuma como prioridade resolver problemas do cliente, e não se comportar de um jeito quando o chefe está olhando e de outro quando ninguém está vendo. E acredito que os consumidores iriam gostar da ideia. No mínimo iriam prestar atenção em um posicionamento diferente.


A questão não é nem fazer ciência. O desafio, resumindo, é parar de repetir as mesmas mentiras e pensar em fazer as coisas de um modo mais autêntico. E, quem sabe, de um modo mais honesto.

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Interpretando o silêncio

Quem recebe ordens interpreta o tom de voz e o silêncio do chefe das mais variadas formas.

Estudos indicam que quem possui mais poder costuma ter um tom de voz mais firme e estável, e com certa frequência até mais alto. Quem detém o poder também costuma ser mais direto, especialmente por não precisar se explicar muito para convencer alguém.

Por isso, uma palavra inocente ou impensada do chefe pode gerar consequências inesperadas.

Por exemplo, se o seu chefe disser “Preciso falar com você”, e mais nada, você vai começar a pensar em muitas coisas. O que ele quis dizer com isso? O que eu fiz de errado? Quando, provavelmente, o chefe só precisa falar com você.

Uma comparação: você não ficaria tão preocupado se um colega de trabalho dissesse a mesma frase. Talvez você nem prestaria atenção, dependendo do momento. Quando quem fala é quem manda, a imaginação parece funcionar melhor.

O silêncio também é um instrumento poderoso de quem manda. Como o seguinte caso, relatado por um estudioso do assunto: um voo enfrentou, durante alguns minutos, uma forte turbulência, e durante e logo após o ocorrido ninguém da tripulação falou nada. O que estava acontecendo? Você pode imaginar a angústia dos passageiros. 

Em empresas isso acontece com frequência. Um exemplo corriqueiro: em geral, os proprietários preferem não falar com a equipe sobre questões financeiras. Então se especula o quanto a empresa ganha e o quanto o proletariado é explorado. Ou pior: o que não se fofoca quando a empresa passa por turbulências e o chefe não fala nada? A falta de comunicação é um problema de gestão, e que envolve um importante detalhe: o silêncio do chefe é a mais misteriosa das mensagens. 

Por isso sugere-se, especialmente para os chefes, muita atenção à comunicação, pois certamente vai influenciar o comportamento da equipe. E nenhuma equipe tem bom desempenho em meio a silêncios, boatos e mal-entendidos.

E se o chefe não for bom em comunicação? Nesses casos, provavelmente ele também não é um bom chefe. Ou ele resolve mudar e se comunicar melhor, ou precisa atuar em alguma área técnica da empresa, que não exija coordenação, liderança e trabalho em equipe.