Qual é o grande problema de Floripa? O trânsito. É assustador observar o fluxo de veículos entre a ilha e o continente. Você repara nos carros congestionados e percebe que a maioria dos veículos leva só o motorista. Uma rotina de agonia solitária.
Logo, qual seria a solução deste problema? A resposta é padrão: meios de transporte mais eficientes. Anel viário. O metrô. Quem sabe algo que ande sobre as águas. Precisamos, enfim, pensar em um jeito mais rápido de transportar pessoas, certo? Pode ser. Mas aí surge uma questão ignorada: será que todas as pessoas precisam mesmo se locomover?
Com a tecnologia atual, muitos tipos de trabalho, por exemplo, perderam a necessidade do deslocamento. Continuamos indo e vindo por causa do hábito burocrático, da resistência às mudanças.
Pense no funcionário público que trabalha fechado numa sala das 8 às 18, em frente ao computador. Ele não poderia desempenhar suas funções em casa?
Uma ideia: imagine uma amostragem de 5 funcionários públicos da burocracia (em diversos casos um pleonasmo, certo?). Cada um tem sua mesa. Elimine quatro dessas mesas. Na mesa que sobra, será feito rodízio. Cada um trabalha no espaço físico uma vez por semana. O resto do trabalho é feito em casa. Ele será avaliado pelos resultados, e não pela frequência irrelevante. É um começo. É o futuro.
O que seria mais eficiente em Florianópolis: construir mais uma ponte ou investir em internet rápida e premiar a empresa que movimenta menos sua equipe? Detalhe: uso aqui o trabalho remoto como exemplo, mas o cenário poderia ser o comércio ou a educação.
Parênteses: não vamos criticar só os governos por procurar respostas corretas para perguntas erradas. Será que você não está se perguntando por que não encontra a pessoa certa, quando na verdade a pergunta seria, digamos, por que você precisa desesperadamente de alguém para tentar viver melhor? Ou então, você se pergunta como aproveitar melhor o seu tempo livre (a noite e nos finais de semana) quando deveria estar se perguntando, digamos, por que você trabalha há tanto tempo numa empresa que empata sua vida? Será que é do ser humano insistir em perguntas erradas?
Enfim, escolha aí o problema mundial e elabore a questão: mobilidade, poluição, alimentação, superpopulação, o apocalipse. A resposta não muda: só a tecnologia pode salvar o mundo.
Pode ser nos negócios, na vida profissional e até na vida pessoal: é preciso tomar cuidado com as métricas de vaidade. Métricas são as medidas que utilizamos para medir desempenho. Métricas de vaidade, por sua vez, são resultados que podem parecer sucesso. Mas nem sempre (ou quase nunca) são confiáveis.
Será que uma empresa que não tem nenhuma reclamação é uma empresa eficiente? Ou os consumidores estão simplesmente indo embora calados e resignados? Será que os elogios que você ouve são sinceros? Ou a pessoa elogia porque teme a maneira que você reagiria ao ser criticado? Será que um monte de curtidas no Facebook significam um bom conteúdo? Ou é você que implora e apela para ser curtido?
Outro exemplo, que originou este texto: os amistosos que a seleção brasileira vem jogando servem para quê? Eles deveriam servir para preparar e testar o time para a copa do mundo. No entanto, a seleção brasileira prefere, com raras exceções, enfrentar adversários fracos. É como ir a escola e fazer uma prova fácil, em dupla e com consulta.
No dia 5 de março o Brasil enfrentou a África do Sul. O resultado foi o esperado: 5 a 0. A África do Sul nem vai jogar a próxima Copa. No mesmo dia a França enfrentou a Holanda e a Espanha jogou contra a Itália. Fora a Espanha, última campeã, todos os times passaram por duras eliminatórias para conseguir vaga na Copa. O Brasil não precisou jogar as eliminatórias por ser o país sede. O único alento ao torcedor é que o time respondeu bem na Copa das Confederações do ano passado.
Não entendo muito de futebol, mas vejo nesse fato algo cultural. Adoramos enganar a torcida. Adversários fracos são (geralmente) facilmente batidos, e a equipe vencedora não é muito questionada. Enfim, várias métricas de vaidade: aplausos, goleada, boas atuações. Pergunta: até que ponto esses resultados representam a realidade?
Se você não passar por provações não poderá corrigir erros. Um teste fácil não vai apontar seu desempenho. Vale para a faculdade, para competições, vale para a vida.
A propósito, os próximos adversários da seleção brasileira em amistosos serão Panamá e Sérvia. E depois vem a Copa.
A autoajuda é um mercado bilionário de livros, vídeos e palestras. Seu conteúdo básico é o otimismo, o pensamento positivo. Você precisa acreditar que as coisas vão dar certo no futuro. Você precisa, na mais surrada das lições, enxergar o copo meio cheio, e não falar que ele está meio vazio. Mesmo que ele de fato esteja.
Para o otimista por natureza a autoajuda até funciona. Para alguém com problemas sérios, cético e desconfiado, a autoajuda pode piorar as coisas. Acreditar que uma força superior vai fazer com que tudo de certo no final pode apenas antecipar a catástrofe, gerando ansiedade e problemas na autoestima. A questão foi tema de uma boa matéria da revista Época (17 de fevereiro).
O manual do otimista diz que ele precisa ter metas, objetivos, causa, missão. Ninguém questiona a importância do foco, mas tornar esses propósitos uma obsessão pode fazer você ignorar coisas importantes e nem perceber o que acontece ao seu redor. E aqui entra em cena o bom pessimista: ele tem foco, mas sua preocupação está nas fatalidades do caminho que ele percorre.
Esse pessimista precavido não ignora as piores hipóteses. Ele percebe que a situação poderia ser pior do que já é e, resignado, volta ao trabalho. Vislumbrar um futuro sombrio é uma maneira eficaz de estar preparado para quando este futuro chegar. Se você sabe que ele está vindo (e você sabe!), por que se iludir imaginando que tudo vai dar certo? Por que essa ansiedade que ignora a realidade e insiste em divulgar pensamentos positivos no Facebook?
Talvez a mais cruel consequência do otimismo é a motivação, abordada neste espaço há alguns dias. Nos tornamos otimistas preguiçosos que precisam de motivação para estudar e trabalhar. Ser um bom pessimista, quem sabe, é saber simplesmente ignorar a falta de vontade.
Lembro de uma senhora que trabalhava comigo que, ao final de uma palestra motivacional com um mágico, abordou-o lacrimejando e falou: “A gente precisaria de uma palestra assim toda a semana!” A pobre sabia que, no dia seguinte, estaria sentada num espaço escondido de uma empresa caótica. E que no máximo em cinco dias a realidade consumiria a dose de otimismo que acabava de adquirir. O palestrante picareta sorriu.
Enquanto você sonha com a paz de espírito e com a alma gêmea, a vida passa e você esquece do que precisa ser feito. Não há final feliz esperando por você – e não se iludir sobre isso é um bom caminho para uma vida menos passiva e mais produtiva.
Caro leitor: você já ouviu falar nos elementos do processo de comunicação? Ele é bastante simples mas extremamente representativo. Permita-me resumi-lo (ou pule para o próximo parágrafo): o emissor é quem envia a mensagem para o receptor. O receptor interpreta essa mensagem e envia um feedback ao emissor: pode ser uma resposta formalizada ou uma cara de espanto, por exemplo. Podem acontecer ruídos, que são interferências que prejudicam a compreensão da mensagem ou do feedback. E o emissor utiliza um canal para transmitir a mensagem, em geral uma tecnologia: uma carta (uma tecnologia revolucionária há alguns séculos), um celular, o Orkut (uma tecnologia em 2006). É isso.
O problema de um processo tão simples é o risco de ele ser ignorado na sua despretensão. Sua maior contribuição é a seguinte: para haver comunicação é preciso que esse ciclo seja completo. Isso quer dizer que não basta alguém (uma empresa, por exemplo) falar: é preciso que alguém ouça e reaja a essa mensagem. No entanto, cada vez mais, sobram emissores e faltam receptores.
Hoje em dia o emissor atira suas mensagens ao acaso. Se der sorte, algum ouvinte ou leitor desavisado se torna um receptor. Essa atitude comunicativa impensada e quase mecânica é característica, por exemplo, das redes sociais.
Mas tem aquela história: nós moldamos as ferramentas e elas nos moldam. Por exemplo, o hábito de falar sem destino e de modo inconsequente no Facebook acaba contaminando as pessoas quando elas se comunicam em situações, digamos, físicas.
É um hábito que vai ficando impregnado no emissor. Ele esquece de quem está ouvindo. E assim eventualmente humilha, ofende... mas tudo sem querer, impensado. De fato ele nem falou por maldade. Ele não percebeu e nem queria dizer o que disse.
A tecnologia nos levou ao ponto de ignorarmos que, para existir comunicação, precisa haver um receptor definido. Nos tornamos um bando de emissores solitários e desesperados para ser ouvidos. Mas o conteúdo não é customizado, e o ruído se tornou a mensagem propriamente dita.
Logo, cuidado se você é um emissor e não sabe exatamente quem é o seu público. Você pode falar uma grande bobagem e magoar, ofender, afastar. Eu andei errando assim ao falar em público. Sinto muito.
Não é novidade que sentimentos atrapalham a razão. O caro leitor já deve ter feito uma compra por impulso. Já deve ter ofendido alguém no momento da raiva. Já falou algo que não devia. Só no outro dia, quando a poeira assenta, percebe o tamanho do erro. Como diria algum personagem de Dalton Trevisan, “discussão adiada é meia briga ganha”.
Sabemos que esses sentimentos, digamos, mais latentes (raiva, nervosismo, desejo) confundem a tomada de decisão. No entanto existe uma espécie de sentimento menor que nos atrapalha o tempo todo – e nem percebemos. Esse sentimento é a vontade. Ou melhor: alegamos falta de vontade ou falta de inspiração para deixar de fazer aquilo que precisamos fazer.
Num artigo recente do blog da Harvard Business Review, a autora Heidi Grant Halvorson afirma que ignorar a falta de vontade é uma maneira eficaz de combater a procrastinação. Por que precisamos sentir alguma coisa que nos impulsione a agir?
Lendo esse artigo, uma lembrança da infância apareceu e resultou neste texto. Um amigo, notório repetente, comentou que não entendia como eu tinha vontade de estudar. Lembro que respondi que não tinha vontade: estudava porque não queria reprovar. Era um hábito necessário, uma percepção precoce das consequências dos meus atos. (Se você procurar bastante, vai encontrar uma ou outra lembrança que te enche de orgulho.)
O fato é que nada está te impedindo. Como lembra a autora, nada está amarrando você à cama. A ausência de vontade, se você parar para pensar, é algo que de fato não existe. E para preencher esse vácuo só existe uma solução: criar em você mesmo o hábito de ignorar esse pseudo-sentimento.
No artigo a autora lembra o exemplo de grandes escritores que desenvolveram uma rotina de trabalho. Eles perceberam que se aguardassem pela tal inspiração produziriam muito pouco. Não importa o seu estado de humor: faça o que você quer e precisa fazer, ignorando a falta de vontade. Desanimado e cansado, levanta-te e anda.
Em uma entrevista recente, o fotógrafo americano Chuck Close afirmou que “a inspiração é para amadores. O resto das pessoas simplesmente pega e vai trabalhar”. Detalhe: Chuck Close ficou parcialmente paralisado em 1998 devido a uma compressão da medula espinhal. Mas ele continua trabalhando.
O beijo gay do último episódio da novela das nove repercutiu bastante no Facebook. Foi a primeira vez que dois homens se beijaram em uma novela da Globo. O desfecho da trama teve 44 pontos de audiência, e o Ibope calculou que 7 em cada 10 televisores ligados no Brasil estavam sintonizados na novela.
E como aconteceu essa repercussão na internet? Em geral, pessoas enaltecendo o amor livre, criticando o preconceito, celebrando a cena como um avanço na luta pela igualdade. Justo. No entanto, será que quem apoia os homossexuais (segundo o IBGE, 10% da população brasileira é homossexual) está realmente pensando no bem deles ou quer apenas aparecer e parecer uma pessoa sem preconceitos, moderna e descolada?
As manifestações do ano passado geraram um fenômeno semelhante: pessoas celebrando os acontecimentos para turbinar a própria popularidade. Pau na polícia, nos políticos, no “sistema”, ou “em tudo isso que está aí”. Mesmo sem saber exatamente o que acontecia, era a oportunidade de aparecer no Facebook. (Em tempo, uma pergunta para quem regozija em frente à TV ao ver as ações dos black blocs da vida: você não se sente nem um pouco constrangido com a morte do cinegrafista da Band Santiago Andrade?)
Não é raro ver pessoas apelando para a difamação, mesmo sem conhecer ninguém com opinião divergente. E para isso o Facebook é ideal: o pensador moderno lança suas ofensas à esmo, na expectativa de algum reconhecimento. Sem perceber, acaba atingindo pessoas que, em silêncio, simplesmente discordam.
De qualquer modo, convenhamos: as pessoas falam e opinam sobre as polêmicas que quiserem. É o preço justo que a liberdade de expressão cobra. Mas eventualmente, esse emissor inconsequente pode também sofrer consequências.
E aqui chegamos no ponto principal deste texto: por que “personalidades” manifestam opiniões extremas sobre assuntos que não entendem e que não são relacionados com suas atividades?
Pense no seu público, caro empresário: será que pessoas que discordam drasticamente de você vão ignorar seu radicalismo virtual e, mesmo assim, frequentar a sua loja? Um dado interessante, quem sabe estratégico: segundo o Datafolha, a população brasileira, apesar de tolerante, apresenta fortes posições conservadoras. Sabendo disso, como você se comunica?
Em meio a tanta opinião compartilhada, a melhor maneira de respeitar a convicção e o sentimento alheio é permanecer em silêncio. E longe do computador.
Os 7 pecados capitais são, basicamente, um conceito católico. No entanto, bastante difundido em qualquer religião ou cultura leiga (laica). Seriam os 7 vícios que o bom cristão deveria evitar. Em certo momento da história, a igreja católica divulgou as 7 virtudes que deveriam ser praticadas para combater os 7 pecados. Mas o proibido ficou mais conhecido – ou você saberia citar as 7 virtudes capitais? São elas a humildade, a disciplina, a caridade, a castidade, a paciência, a generosidade e a temperança (moderação, equilíbrio).
Um detalhe curioso: não só as virtudes combatem os pecados. Alguns pecados se contrapõem, e um parece anular o outro. Por exemplo: a avareza, ou ganância, e o seu oposto, a preguiça. A temperança, como descrita acima, consegue evitar a preguiça e a ganância ao representar uma postura equilibrada?
Pode ser que isso seja possível, mas digamos (ou digo eu, já que o texto é meu) que seja impossível. E que você tenha que optar entre ser um ganancioso ou um preguiçoso. Uma decisão totalmente sua.
Na raiz desse dilema habita uma dúvida que a ciência já tentou responder: a ganância é genética ou é uma opção de vida? E a preguiça, nasceu com você ou foi uma escolha, ou uma consequência da indiferença? Ou ainda influência do meio em que você foi criado e vive? Quando foi que você se fez a pergunta crucial: vale a pena o sacrifício? Ou é melhor deixar acontecer?
De alguma forma, a ganância move o mundo. Quem já assistiu ao grande filme “Wall Street – Poder e Cobiça”, viu o milionário especulador Gordon Gekko (Michael Douglas, Oscar de melhor ator pelo papel) afirmar que a ganância é boa (“Greed is good!”). Gekko atropelaria qualquer princípio ético para satisfazer suas ambições. Mas não é preciso ser um fanático da causa: pregar a ganância é, de uma forma extrema, valorizar a meritocracia e a individualidade.
Os dois vícios, ganância e preguiça, se opõem: mas um deles é mais fácil de ser administrado, pois dá menos trabalho. A ganância cansa, tira o sono. A preguiça não: ela pode ser automática, como a inércia. Logo, a opção por crescer e enriquecer é sua – sugere-se, no entanto, que isso seja feito com certa temperança. E ser medíocre, lamento, ou é algo que nasceu com você (na melhor das hipóteses), ou é uma opção sua: por mais que você imagine que seja consequência da falta de sorte ou de uma vida injusta.